terça-feira, 27 de junho de 2017

Grupo de Estudos Culturais na Amazônia: Memórias na História


Há 6 anos nasceu na UFPA o Grupo de Estudos Culturais na Amazônia (GECA/CNPq/UFPA) sob minha coordenação e do professor Dr. Jeronimo Silva E Silva. Inspirado inicialmente nos escritos seminais de intelectuais nascidos ou diasporizados na metrópole britânica, fundadores do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), sediado na Universidade de Birmingham-Londres, e parceiro do Centro de Estudos Culturais Africanos e da Diáspora (CECAFRO/CNPq/PUC-SP) na regência da querida e inesquecível professora Drª. Maria Antonieta Antonacci, o GECA passou a refletir e investigar a diversidade de experiências e realidades socioculturais, políticas, econômicas e geohistóricas que conformam ruralidades e urbanidades, estéticas do cotidiano, oralidades e escritas, expressões de tradições e modernidades, patrimônios, saberes e religiosidades afetivas e locais frente à lógica de projetos globais no plural e intersticial mundo amazônico, construído e movimentado por populações indígenas, africanas, lusitanas, afroindígenas, árabes, entre outros povos e culturas que por aqui se interculturalizaram em teias de profundas mestiçagens e/ou criuolizações. Nesse entremeio, as leituras epistemológicas guinaram para os circuitos dos Estudos Culturais Latino-americanos, Estudos Subalternos, Pós-Coloniais e, mais recentemente, Decoloniais e escritos da Antropologia Pós-Moderna, sempre cruzando com perspectivas teórico-metodológicas da História Oral, Etnografia, Cartografia e Etnobiografia. Durante esses 06 anos, o grupo contribuiu e vem contribuindo com a formação de bolsistas PIBIC, bacharéis e licenciados plenos, mestres/mestrandos, doutores/doutorandos e pós-doutorandos em Artes, Antropologia, Comunicação, Linguagens e Cultura, História, Educação, Museologia, Letras, Turismo, para citar as principais áreas onde o debate e a formação intelectual e política vêm se fertilizando. Nesse período, o GECA realizou ainda dois colóquios nacionais de Estudos Culturais na Amazônia e publicou duas importantes coletâneas de textos acerca de pesquisas desenvolvidas por seus integrantes e outros pesquisadores que participaram dos eventos acadêmicos. O primeiro livro contou com apoio e parceria do NEAB-IFPA, coordenado pela querida amiga e professora Helena Rocha, e o segundo evento e a coletânea só foram possíveis pela afetiva e competente parceria com o GPAC-UFPA, dirigido pela querida professora Maria Ataide Malcher. Na construção de um repertório de produções acadêmicas, pesquisadores do grupo vêm publicando artigos em revistas científicas ou anais de eventos, capítulos em livros, assim como têm colaborado com a realização de eventos nacionais e internacionais em outros estados brasileiros. Quinzenalmente em cada semestre, sempre às segundas-feiras, das 14h às 18h, o grupo seleciona uma temática de estudo e realiza seus encontros, prática que tem contribuído significativamente com o desenvolvimento das diferentes investigações produzidas ou em produção. Ontem (23/06), para celebrar seus 6 aninhos, o GECA foi convidado pela professora Lia Braga para participar, na sala de Recitais do CCSE-UEPA, da conferência "HISTÓRIA ORAL: Uma aventura entre o Saber e o Conhecimento", proferida pelo professor Dr. Jose Carlos Sebe Bom Meihy (USP), um dos grandes nomes do trabalho com História Oral no Brasil. Aproveitamos o momento, então, para lançarmos nossa camisa em edição comemorativa aos 6 anos do grupo. Agradecemos à Ninon Jardim que coordenou o projeto gráfico da camisa, explorando um outro grafismo marajoara, descoberto por Lucas Araújo em sua pesquisa de mestrado em Antropologia. Trata-se de um grafismo captado por viajantes estrangeiros que ao percorreram a Amazônia no século XIX encontraram-se com poderosas mulheres indígenas em artesanias no estreito de Breves. Nas louças confeccionadas e pintadas por essas mulheres e depois adquiridas e transitadas para museus europeus como o de Harvard, os desenhos exploram outras cores e representações cosmológicas da pluriversal Amazônia Marajoara. Jeronimo Silva E Silva,Ninon JardimJosiane MeloDaniel MirandaÍtala Barbosa da SilvaBruno Marcelo CostaFrancinete LimaAirton Chaves RochaEduardo Wagner,Jaime Cuellar VelardeMarcos Valério Reis ReisWalter ChileCarmen CarvalhoValéria Frota de AndradeDerik Vale ReisDiana Priscila Sá AlbertoRodrigo Maroja BarataRodrigo WanzelerClaudete SilvaSônia AmaralDione LeãoVivianne NunesEliane CostaAna SmithMário Médice BarbosaHermes Veras



Dr. Jose Carlos Sebe Bom Meihy e suas obras 


Dr. Jose Carlos Sebe Bom Meihy com o GECA
Grupo de Estudos Culturais na Amazônia completando seis anos




quarta-feira, 21 de junho de 2017

O nosso "encerramento" na presença de Stuart Hall

Livro Cultura e Representação de
 Stuart Hall- Foto: Agenor Sarraf
“O ESPETÁCULO DO OUTRO”
No último encontro da disciplina “Leituras em Antropologia: História Oral e Análise do Discurso” em parceria com as atividades do Grupo de Estudos Culturais na Amazônia (GECA/CNPq/UFPA), lemos e debatemos “O ESPETÁCULO DO OUTRO”, segunda parte do fascinante e impactante livro de Stuart Hall, “CULTURA E REPRESENTAÇÃO”, publicado no Brasil em 2016, dois anos após sua partida para o mundo das estrelas imortais. O Sociólogo negro da Jamaica “mais lido na Europa e na América Latina” (SANSONE, 2014, p. 6), pensador que melhor sistematizou as diferentes pesquisas desenvolvidas pelo Centro de Estudos Culturais Contemporâneos em Birmingham, entre 1968-1979, quando assumiu a direção do centro, quatro anos antes do nascimento da instituição com a participação de Richard Hoggart e Raymond Williams. A partir daí, Stuart Hall fez os Estudos Culturais esgarçarem centros tradicionais de poder intelectual pelo mundo, tornando-se crítico das epistemologias reducionistas que focalizaram suas leituras tão somente no econômico, textual ou cultural e invisibilizaram mundos e gentes nas margens da Europa. Defensor do projeto da teoria como arma política, Hal transformou sua humanista e politizada condição de vida na diáspora em uma polifonia de lutas em defesa do “outro”, representado não apenas pelo negro, mas também por mulheres, acrescentaríamos indígenas, homossexuais e populações historicamente marginalizadas, silenciadas e desrespeitadas em seus modos de viver e na garantia de direitos humanos (SARRAF-PACHECO, MALCHER e MIRANDA, 2016, p. 91-2). Em “O ESPETÁCULO DO OUTRO”, para entender o poder da mídia na construção social da realidade, com destaque para as representações forjadas na modernidade sobre o corpo negro, o intelectual da diáspora mergulha em estudos linguísticos, semióticos, sociológicos, antropológicos, comunicacionais, filosóficos e psicológicos. Com isso, deixa perceber a representação em perspectiva criativa, um campo de produção cultural pelo pluriverso da linguagem como produtora de significados compartilhados em lugares e tempos geohistoricamente situados. Neste capítulo, desvenda as engrenagens de funcionamento do “Espetáculo do Outro”, por meio do conceito de “estereotipagem” captado em “publicidades que utilizam modelos negros, reportagens jornalísticas sobre imigração, ataques raciais ou crimes urbanos, além de filmes e revistas cujo âmago são as categorias raça e etnicidade” (HALL, 2016, p. 139), desmontando o discurso da diferença para mostrar suas armadilhas, ambiguidades e efeitos, muitas vezes, perversos. O autor atravessa, então, a ciência raciológica, fundadora da ciência moderna eurocentrada, articulada aos eixos gênero/sexualidade, classe e expõe as vísceras dos regimes de representação como regimes de poder na contemporaneidade hierarquizada, racista, classificatória, patriarcal. Os regimes de representação, em última guinada, construíram o outro como ser impossível de existência, de história, agência e capacidade de construir civilizações no planeta. Ler Hall mobiliza sentimentos confusos porque mistura a alegria e a dor, mas ao mesmo tempo revigora a vontade de querer continuar pelo campo da Educação e formação de novos pesquisadores a luta pela construção e reconhecimento de que o maior patrimônio do planeta são nossas sociedades multiétnicas e interculturais, portanto, as cores da diferença são húmus e potências da vida humana.


"A imagem carrega muitos significados, todos igualmente plausíveis. O importante é o fato de que ela mostra evento (denotação) e carrega uma "mensagem" ou significado (conotação)- Barthes a chamaria de "metamensagem" ou de "mito" sobre "raça", cor e "alteridade". Não há como deixarmos de ler esse tipo de foto como uma imagem que "quer dizer algo", não apenas sobre as pessoas ou a ocasião, mas também sobre a "alteridade" delas, a "diferença". A "diferença" está marcada. A forma como é interpretada é uma preocupação constante e recorrente na representação de pessoas racial e etnicamente diferentes da maioria da população. A diferença possui significado. Ela "fala"." (Stuart Hall 2016, p. 146.) 



Além disso, tod@s tiveram um momento para comunicar suas pesquisas. Foi o momento de compartilhar as escritas e conhecimentos acadêmicos deixando de lado a experiência individualizada da pesquisa.





O momento festivo de junho nos trouxe a leitura da obra de Stuart Hall conjuntamente com sentimento afetivo das festas juninas e, além disso, a comemoração do aniversário do professor Agenor Sarraf.

Decoração junina- Universidade Federal do Pará
Parabéns ao Professor Agenor Sarraf

terça-feira, 23 de maio de 2017

O que é o Grupo de Estudos Culturais na Amazônia- GECA?



O GECA é um grupo de estudo, pesquisa e produção de saberes, fundado em 07 de março de 2011, sob a coordenação dos professores doutores Agenor Sarraf Pacheco e Jerônimo da Silva e Silva, registrado no Conselho Nacional Científico e Tecnológico (CNPq) e sediado na Universidade Federal do Pará (UFPA). Fundamentado epistemologicamente nos Estudos Culturais Britânicos, Norte e Latino-Americanos, nos Estudos Subalternos, Pós-Coloniais e, mais recentemente, Decoloniais, o grupo vem, ao longo desses anos, explorando temáticas interdisciplinares que articulam as áreas de Humanidades (História, Antropologia e Educação), Letras, Artes e Ciências Sociais Aplicadas (Comunicação e Museologia). Esse investimento tem permitido o desenvolvimento de novas investigações, olhares e perspectivas analíticas interculturais da realidade sociocultural, local e global, amazônica e brasileira. A base epistemológica em exercício dialoga diretamente com os campos teórico-metodológico da História Oral, Cartografia, Etnografia, Etnobiografia, Micro-História, Crítica de Arte, Crítica Documental, aproximando-se, em alguns momentos, da Análise do Discurso e da Análise do Conteúdo. Agenciado por esse suporte epistêmico, teórico-metodológico, poético e político, o GECA tem procurado debater, problematizar, refletir, socializar e publicizar estudos da realidade brasileira, desde o mundo amazônico, visibilizando variadas fronteiras, trocas, tensões e mesclas construídas por povos, grupos e agentes socioculturais nativos, coloniais, diaspóricos, migrantes e nômades em seus pensares, agires, saberes e fazeres que conformam modos de viver, lutar e defender cosmovisões como formas de praticar direitos humanos, intelectuais e espirituais na região em distintos tempos geohistóricos.

O enorme interesse que os Estudos Culturais como campo indisciplinado do saber ganharam, a partir de sua disseminação na América Latina ao longo da década de 1990, permitiu a formação de pesquisadores interessados em politizar investigações e discussões de temáticas fundamentais aos cenários amazônicos. Nas experiências compartilhadas desde março de 2011, o GECA congrega estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado, bem como professores pesquisadores que realizam ou têm interesses em desenvolver pesquisas em epistemes e campos teórico-metodológicos que lhes atravessam. Em seus variados encontros semanais e quinzenais, realizados com planejamento e regularidade, o grupo tem procurado debater a produção de importantes lugares e intelectuais. Começou pela Inglaterra, adentrou a Índia, Palestina, Caribe, América do Norte, América Latina e Brasil para refletir conceituações teóricas à luz de cosmologias e linguagens de populações amazônicas, centrando-se nas formas de negociações, ressignificações, perdas, lutas, resistências e reinvenções em tempos de encontros e confrontos culturais.

Nestes anos de existência, o GECA debruçou-se em obras e textos de/sobre Richard Hoggart, Raymond Williams, Edward Palmer Thompson, Stuart Hall, Raphael Samuel, Frantz Fanon, Aimé Cesaire Albert Memmi, Edouard Glissant, Edward Said, Homi Bhabha, Ranajit Guha, Paul Gilroy, Néstor García Canclini, Beatriz Sarlo, Jesús Martin-Barbero, Walter Mignolo e membros do Grupo Modernidade/Colonialidade, George Yudice, Gayatri Spivak, Boaventura de Souza Santos, Alessandro Portelli, Alistair Thomson, para citar os principais. Sediado até junho de 2013, no Instituto de Ciências da Arte e vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGArtes) e em 2011 ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA), no segundo semestre de 2013, o grupo passou a realizar seus encontros quinzenais no auditório do PPGA, transformando seus encontros na disciplina Leituras em Antropologia para oportunizar alunos de variados programas de pós-graduação interessados em leituras, análises e debates das literaturas selecionadas por eixos temáticos.

O GECA conscientes das interconexões entre oralidades, memórias e letramentos, ruralidades e urbanidades, tradições e modernidades, localidades e globalidades, têm procurado refletir e compreender como grupos e pessoas oriundas de diferentes territórios culturais, vivenciam, interpretam e criam significações para conviver com contínuos processos de mudanças impulsionados pelos mais variados suportes tecnológicos que se instalaram e conectaram a região amazônica ao restante do planeta.

Nas intersecções produzidas, os integrantes desses grupos de pesquisa, reconhecendo-se como filhos nativos ou adotivos do mundo amazônico, vêm despertando consciência para os circuitos das tradições, comunicações, artes, saberes, fazeres, visibilizados em patrimônios culturais que congregam e expressam influências amazônicas, europeias, africanas, asiáticas, norte-americanas, intensificando-se com a disseminação das variadas formas de letramento, culturas e economias midiáticas em tempos contemporâneos.
Entendemos que se processos de perdas, dominações e dizimações não podem ser esquecidos no contar das histórias regionais, não se pode olvidar que, mesmo em escalas desiguais, traduções culturais por meios de táticas, recepções ativas, artimanhas e/ou ressignificações deixam ver astuciosas maneiras de resistir e lutar no palco da cultura pelas gentes amazônidas.

A existência de um grupo de estudo, pesquisa e produção de novos saberes na Amazônia é estrategicamente importante por ser a região território por excelência de históricas práticas de marginalização de povos e culturas, em que outros saberes, comunicabilidades, pensares e fazeres são pouco conhecidos e, por isso, desvalorizados pela tradição acadêmica brasileira.
Finalmente, preocupado com a formação intelectual de amazônidas brasileiros e brasileiros que se fazem amazônidas e a produção de saberes sobre diferentes objetos/sujeitos de estudos que se apreendem a partir do/no norte do Brasil, o GECA vêm agregando interessados em investigar diferentes realidades e temáticas com base no conceito de cultura na perspectiva desenvolvida pelo CCCS como “uma forma completa de vida, material, intelectual, espiritual”¹, comunicacional, “incluindo o comportamento simbólico”² e os sentidos e significados que as pessoas de florestas e cidades dão às suas experiências sociais³.




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¹ WILLIAMS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p. 16.
² NELSON, Cary et al. Estudos Culturais: uma introdução. In: SILVA, Tomaz Tadeu (org.). Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos estudos culturais em educação. 6a ed. São Paulo: Vozes, 1995, p. 14.
³ PACHECO, Agenor Sarraf. À Margem dos “Marajós”: cotidiano, memórias e imagens da “Cidade-Floresta” Melgaço-Pa. Belém: Paka-Tatu, 2006.



Texto de Agenor Sarraf Pacheco

terça-feira, 9 de maio de 2017

Encontro com Foucault


O curso de História Oral e Análise do Discurso chegou em sua segunda etapa. Iniciamos leituras e debates sobre o pensar e produzir conhecimento pelos caminhos arqueológicos e genealógicos de Michel Foucault, intelectual que colocou a forma hegemônica de construção do saber acadêmico nos circuitos da modernidade europeia em problematização, exercitando em vasta e densa pesquisa novos modos de produção do saber. Nesse projeto de escrita, o intelectual francês debruçou-se, a partir dos anos 60 do século XX, em temas considerados até, então, marginais para as pesquisas em Ciências Humanas, construindo um poderoso legado analítico em perspectiva interdisciplinar. Na segunda-feira, 08 de maio, sob a regência da Profa. Dra. Ivânia Neves, o grupo começou a mergulhar nas obras e comentadores de Michel Foucault.


Profa. Dra. Ivânia Neves






terça-feira, 18 de abril de 2017

GECA entre a História Oral e Análise do Discurso.

O Geca reiniciou suas atividades em 20 de março de 2017 com debates sobre História Oral e Análise do Discurso. Nos encontros quinzenais serão lidos e debatidos intelectuais do campo da história oral, análise do discurso e poder.  Alessandro Portelli, Michel Foucault, Stuart Hall e Alistair Thomson são alguns dos autores debatidos neste primeiro semestre de 2017.



DOWNLOAD: Plano de curso + textos aqui





Agenor Sarraf com integrantes do Grupo de Estudos Culturais na Amazônia 2017








segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Reencontros com "O Outro: memórias, poder e identidades"

Nesse segundo semestre de 2016, voltamos para mais um encontro do Grupo de Estudos Culturais na Amazônia. A discussão foi feita com base na primeira unidade do planejamento chamada O Outro: Memórias, Poder e Identidades.

O debate foi iniciado com o texto Contar histórias: um diálogo com o outro de Cléria Costa. Posteriormente foi debatido o texto Historia oral e narrativa: tempo, memória e identidades de Lucilia Delgado. E concluímos com o texto recentemente publicado  de Stuart Hall, O Ocidente e o Resto: Discurso e Poder. Esses três textos abriram caminhos reflexivos sobre as áreas da História, Antropologia, Educação e outras. Dialogamos sobre  memória, identidade e poder na encruzilhada da criação do "Ocidente" e do "Não Ocidente".

Passagens dos textos:



Compreender o contar histórias como uma narrativa tangenciada por diferentes temporalidades, ou seja pela memória, bem como uma forma de reconhecimento do outro. Cléria Costa, 2014.

Na escola os colegas me chamam de cabelo de bucha, de cabelo de Bombril, caçoam muito de mim. Por isso só vou à escola de cabelo preso. Queria poder soltar meu cabelo. Quero alisar ele para ficar bonita... (Maria, 10 anos, interlocutora de Cléria Costa.
O passado apresenta-se como vidro estilhaçado de um vitral antes composto por inúmeras cores e partes. (...) Compete à História evitar que o ser humano perca referências fundamentais à construção das identidades em curso, esteios fundamentais do auto-reconhecimento da mulher e do homem como sujeitos de sua história. Lucilia Delgado, 2003.

Uma vez elaborada a ideia de OCIDENTE, ela por si só, tornou-se produtiva. Provocou efeitos reais: possibilitou que pessoas falassem sobre certas coisas de certas maneiras. Produziu conhecimento. Tornou-se, duplamente o fator organizador em um sistema de relações globais de poder e o conceito organizador ou termos em uma forma inteira de pensar e falar.  Stuart Hall, 2016. 

Os excertos acima são memórias da calorosa discussão realizada hoje na retomada das atividades do Grupo de Estudos Culturais na Amazônia (GECA/CNPq/UFPA). Uma tarde de muitas aprendizagens para as pesquisas em curso e para a vida. Dia 14/11, mergulharemos no tema APRENDIZAGENS EM ANTROPOLOGIA

Nossos planos e textos de estudos estão disponíveis no blog.


Nesse semestre, novos integrantes entraram para o GECA. Tod@s são bem-vind@s!

Agenor Sarraf






Integrantes GECA-2016




segunda-feira, 21 de março de 2016

1º Encontro de 2016: Memória e Tempo em Deleuze

Começamos mais um ano de reencontros gequianos, neste mês de março, o GECA retornou suas quinzenas de estudos teóricos-metodológicos sobre o campo de análise Memória e Sociedade. Hoje, no encontro de 21 de março de 2016, iniciamos os estudos com o texto Memória e tempo em Deleuze: multiplicidade e produção  de Uhng Hur Domenico, professor Adjunto da graduação e pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Goiais. Texto disponível para download no final do post.

(Claudete Silva, Sônia Amaral, Rosa Marin, Jerônimo Silva, Francinete Saraiva, Diana Sá Alberto, Josiane Melo, Rodrigo Wanzeler, Hermes Veras)  




Na dinâmica produtiva e múltipla de estudos, a professora Rosa Marin (usando camisa amarela) selecionou e reescreveu no quadro uma frase importante para resumir a discussão sobre Memória e Tempo em Deleuze:






Grupo de Estudos Culturais na Amazônia (GECA)





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¹DOMENICO, Uhng hur. Memória e tempo em Deleuze: multiplicidade e produção. Athenea Digital- 13(2):179-190. Ensayos, 2013. Download 

domingo, 29 de novembro de 2015

CIDADE VELHA, Ventre e Margens de Belém - Por Agenor Sarraf Pacheco

O bairro da Cidade Velha, expressão viva de uma Belém Quatrocentona, é um lugar polissêmico e contraditório. Ventre de nascimento do núcleo urbano também se faz margens espacial e social. Em tentativa poética e política de compor uma leitura da cidade, focalizo esse ambiente que ganhou convencional destaque por ser de "grande importância no processo de conquista e colonização portuguesa no Norte do Brasil" (G1 PA). Ali emergem expressões da vida na Amazônia que parecem traduzir uma perene cidade-floresta.

Disponível em http://www.acaifrooty.com.br/blog/feira-do-acai-e-referencia-no-mercado-ver-o-peso/. Acesso em 05/11/2015.
 Território de entrada e saída de saberes, tradições e modernidades, o bairro ao constituir-se em zona de intercâmbio com outros ambientes rurais da região, assume uma identidade anfíbia. Muitos moradores de Belém usam diariamente embarcações, ancoradas nos portos da Cidade Velha, para ir ao trabalho, realizar viagens ou passeios fora do núcleo urbano. Nesse trajeto, tecem relações cotidianas em paisagens que congregam asfaltos, águas e florestas. Mas pelas margens de Belém, o açaí rouba a cena. Ele é ícone da identidade amazônica, cuja manifestação simbólica maior é a Feira do Açaí. Por meio de variados tipos e modelos de bandeiras vermelhas, situadas em pontos estratégicos da metrópole paraense, alinhava-se um desenho complexo de uma cidade pintada e integrada pelo hábito indígena de se alimentar.

O tombamento do Centro Histórico foi homologado pelo Ministério da Cultura em 10 de maio de 2012. Para esse processo ocorrer, assinala Christine Machado, “levou-se em conta o conjunto formado pela trama da cidade consolidada entre os séculos 17 e 18 – com igrejas e suas torres, largos e praças, coretos, mercados e feiras - em interação com a Baía de Guajará”. Já o dossiê do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) aponta que a área de tombamento aprovada pelo Conselho Consultivo incluiu bens já tombados individualmente pelo IPHAN nas décadas de 1940 a 1970. 
Disponível em http://amazonia.org.br/2012/05/tombamento-do-centro-hist%C3%B3rico-de-bel%C3%A9m-%C3%A9-homologado-pelo-minist%C3%A9rio-da-cultura/. Acesso em 05/11/2015.

Belém erigiu-se com a construção de uma improvisada fortificação militar e uma pequena igreja de taipa, coberta de palha dedicada à Nossa Senhora das Graças, em 1616, marcos simbólicos da dominação portuguesa, num tempo de morte da gerência do território pelos tupinambá e o nascimento do núcleo colonial (1616-1626), mais tarde o Estado do Maranhão e Grão-Pará (1626-1652; 1654-1759) sob a custodia Lusitana. Marcada pela cruz, espada e arco e flecha, o Centro Histórico de Belém guarda diferentes memórias, algumas estão tatuadas no patrimônio arquitetônico, outras se alojam nos subterrâneos de lembranças que as edificações silenciam, mas não conseguem apagá-las totalmente. Muitas pessoas quando visitam esse histórico ambiente urbano, ficam encantados com o poder imponente das construções, mas parecem esquecer as contradições ali existentes.
É importante relembrar que foram populações indígenas, inicialmente, as que erigiram o primeiro monumento colonial, por isso evocar e celebrar uma memória da conquista portuguesa na Amazônia permite visualizar que um processo de tradução cultural orientou o saber colonizador. Na ótica de representações ibéricas e cosmologias ameríndias o patrimônio da Cidade Velha se apresenta, então, erigido sobre memórias oficiais e populares que se cruzam, vivem processos de trocas, experimentam a dominação, a perda e a expropriação, assim como resistem, criam táticas e astúcias para manterem-se vivas. O patrimônio do espaço urbano é plural, assim como plural são os lugares onde ele se manifesta e se ressignifica.
Por esse enredo, o breve passeio pelo Centro Histórico de Belém permitiu rascunhar aspectos de uma cartografia de memórias que explora algumas possibilidades de compreender a cidade por dentro e por fora e na contramão das antigas dualidades: tradição versus modernidade; ruralidade versus urbanidade. Ana Fani Carlos (1995) ao perguntar se “podemos dizer que existem várias cidade dentro da cidade?, eu diria que vejo não apenas vários bairros dentro da cidade, mas várias cidades dentro de um único bairro. Ali se interseccionam a cidade colonial e a cidade da “bela época” tramando-se com a cidade comercial, festiva e de luta pelos direitos de habitação. Concomitante a essas cidades, despontam a cidade da prostituição, da violência, do tráfico de drogas produzidas por dentro e por suas fronteiras.


Disponível em http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1357367. Acesso em 05/11/2015.

 Enfim, nas janelas entreabertas para continuar a olhar e pensar Belém a partir da primeira área onde embrionariamente ela se formou, entre continuidades e mudanças as rugosidades espaciais tomam feituras próprias de seu tempo e dos interesses de seus agentes sociais, a exemplo da Praça Dom Pedro II, cujo espaço no período colonial era o grande Lago do Piri, e, atualmente, é onde está instalado o centro administrativo belenense. Um território de ricos ecossistemas foi sacrificado para o nascimento do Centro Histórico e a emergência de uma metrópole na boca de entrada do grande Amazonas. Um passeio por esse bairro transforma-se em prática politicamente comprometida com lembranças das vozes que não podem mais falar, entretanto, ruídos e reminiscências de suas presenças ausentes, ainda lutam para não serem esquecidas da história.

Texto publicado em O LIBERAL, em 15/11/2015.